A Copa do Mundo 2014 e a Coragem de Ser Quem Somos

Louis Selecao BR sOntem foi o último dia da Copa do Mundo de 2014. Durante este período pude observar meu filho de 6 anos de idade se interessar mais sobre o futebol, questionar, aprender o nome de seus jogadores favoritos, e se empolgar com cada jogo, principalmente os da seleção brasileira. Ele aprendeu muitas coisas novas, mas também me ensinou tantas outras preciosas lições que aqui quero partilhar.

Louis Edward aprendeu que dia de jogo era dia de festa e muita emoção. E que o futebol para nós brasileiros é muito mais que um simples jogo ou competição. Significa estarmos unidos torcendo pelo Brasil. É também símbolo de nossa paixão. A busca da taça representa alegria para o nosso tão sofrido povo.

Ao assistir ao primeiro jogo do Brasil contra a Croácia, ficou surpreso ao ver o pai e a mãe gritarem e se emocionarem com o tão esperado gol. Também pôde ver que o Hino Nacional fazia seus pais se emocionarem. Ele aguardava ansiosamente por cada jogada de Neymar Jr., David Luiz e Thiago Silva (nomes que ele aprendeu rápidamente). Ao ver David Luiz abraçar e consolar James, ele aprendeu a valorizar o talento de um jogador (mesmo quando esse jogador é do time adversário). Ao assistir a cada jogo do Brasil ele torcia, se exaltava, se emocionava e às vezes até mesmo chorava. Ele sofreu quando Neymar saiu de campo em uma maca – após ser violentamente machucado por Zuniga. Seu coração estava aflito, e ele orou por Neymar e a seleção brasileira.

Na última terça, quando viu o Brasil perder para a Alemanha de 7×1, não pôde conter a tristeza. Quanta decepção! Mesmo assim, no dia seguinte, vestiu seu uniforme da seleção brasileira e me acompanhou às compras. Eu discretamente lhe ofereci outra opção de roupas mas evitei demonstrar meu constrangimento em sair em público com ele vestido assim logo após uma derrota tão vexaminosa.

Ele me acompanhou tranquilo e confiante como sempre. No caixa do supermercado, uma moça gentil olhou para ele com carinho e disse que sentia muito pelo time dele ter perdido. Meu filho, sem nenhuma hesitação respondeu: “Não se sinta mal, nós brasileiros ainda somos campeões. A Alemanha se preparou e jogou super bem, merecendo ganhar o jogo”. Nem eu esperava por uma resposta tão direta e cheia de sabedoria. Quanto orgulho de meu filho. É muito fácil torcer para o seu time quando está ganhando e criticá-lo quando está perdendo. Mas ele não agiu como a maioria.

Fomos assistir à final Argentina x Alemanha na casa de familiares. Todos em peso empolgadíssimos torcendo pela Alemanha. Foi um jogo muito difícil para ambos os times e houve prorrogação. Até então, eu como mãe, não pude deixar de perceber que Louis Edward estava torcendo pela Argentina – pois seu jogador favorito da Copa, depois de Neymar Jr., era Messi. Ele não se intimidou e torceu para para Argentina até o último instante.

Alemanha venceu fazendo um gol na prorrogação e levando a torcida ao delírio total. Louis Edward abaixou sua cabeça e lágrimas percorreram seu rosto. Ele não escondeu nem disfarçou sua desolação. Foi confortado pelo pai com um abraço. Eu também o abracei e o levei para outra sala tentando explicar que era normal para nós brasileiros, talvez a maioria, estarmos torcendo pela Alemanha (tendo em vista uma rivalidade de longa data entre Brasil e Argentina). Ele nem hesitou e disse: “Mas eu estava torcendo para Argentina. Eu estava torcendo pelo Messi”. Tive muito orgulho de meu filho naquele momento pois, apesar de todos estarem torcendo pela Alemanha, ele decidiu não ficar calado e manifestou sua escolha.

Em fração de segundos tantas coisas passaram pela minha cabeça. Quantas vezes eu mesma deixei de dar minha opinião para não ofender ou não chatear alguém? Quantas vezes pessoas fingem gostar de algo quando na verdade não podem suportá-las? Quantas vezes não assumimos quem somos verdadeiramente para sermos aceitos ou para ganhar a aprovação dos outros? E tantas vezes em que nos intimidamos quando somos a minoria.

Muito se passou em minha mente e coração durante aqueles minutos em que eu olhava para meu filho de apenas 6 anos me ensinando uma lição de vida tão básica mas muitas vezes difícil de ser posta em prática, em nome da diplomacia, ou por simples medo de sermos ridicularizados ou criticados.

Louis Edward não teve medo, nem se intimidou por ser o único torcendo pelo time adversário. Ele manteve-se firme durante um jogo super longo e estressante. Ele também não teve vergonha de se emocionar em público, expressando por meio de lágrimas sua tristeza quando o jogo havia terminado.

Sou muito grata e realizada por este garoto maravilhoso que desde cedo sabe o que quer e tem coragem para ser quem ele é. Como disse Clarice Lispector:

“Dizem que a vida é para quem sabe viver, mas ninguém nasce pronto. A vida é para quem é corajoso o suficiente para se arriscar e humilde o bastante para aprender.”

Ainda tenho muito a aprender…

Com muito carinho,

Claudia Martins

 

Post a Comment