Dançando na Chuva

12-set-2017 Pós-Furacão Irma

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Quantas vezes já ouvimos que na vida precisamos aprender a dançar em meio à tempestade? No entanto, o que isso significa para você?

Qualquer um que tenha passado pelo furacão Irma já não é mais o mesmo. Quem sobrevive a qualquer furacão jamais se esquece, devido ao caráter transformador desse tipo de experiência. Como sabem, moro há mais de vinte anos na Flórida – estado conhecido por seus dias ensolarados, e também por seus intensos furacões. Bem, vou compartilhar com vocês o que senti durante o furacão Irma.

Em meio a uma tempestade assustadora, o vento uivava e eu ouvia estrondos constantes. Presenciei uma chuva que parecia lavar a terra e tragar consigo de forma avassaladora tudo aquilo que invadia seu caminho. Vi nossa piscina em vias de transbordar, e árvores balançando com tamanha força que parecia que iam cair.

Diante de tudo isso, senti um medo terrível. Meu coração estava aflito. No entanto, tentei manter a serenidade para não apavorar meu filho. Ele, por sua vez, já há dois dias enfurnado em casa sem ter aulas (tendo em vista as medidas de segurança e o toque de recolher decretados pelo Governo da Flórida), andava de um lado para o outro, jogava futebol pela casa, e expressava sua ansiedade fazendo da porta o gol imaginário contra o qual ele chutava. Creio que ele, a sua maneira, estava “dançando em meio à tempestade”. Eu, por outro lado, absorvia o mínimo de informação necessária, de modo a não elevar minha ansiedade.

Embora eu aprecie o silêncio, cada instante tornou-se um desafio para mim. Assistir ao noticiário e acompanhar a trajetória do furacão testou meus níveis de ansiedade de um modo que eu jamais havia imaginado – oscilando em grau e intensidade em questão de segundos. O coração acelera, te faz transpirar, mexe com os pensamentos, e pode até causar pânico. Tenho consciência do que a ansiedade pode fazer com nossas emoções se dermos sinal verde aos pensamentos desequilibrados. Sendo assim, decidi respirar fundo, manter o foco, e confiar em Deus. Confiei Naquele a quem até os ventos e o mar obedecem. Ele, Jesus.

Meu esposo já havia preparado nosso refúgio no quarto de jogos de nosso filho – no andar de baixo de nossa casa. Para garantir nossa proteção, a janela havia sido revestida do lado de fora e por dentro com tábuas de madeira – gerando também um isolamento acústico. Quando acompanhei meu filho à cama, para fazê-lo dormir no chão daquele quarto, não ouvimos absolutamente nada. Silêncio total e aconchego. O quarto de jogos havia sido transformado em um refúgio de paz em meio à tempestade. Passamos a noite neste quarto – dormindo sobre cobertores, travesseiros, e colchão improvisados. Ali, não havia o barulho da tempestade, nem a ansiedade, ou sequer o medo.

 De fato, dançar na chuva pode significar coisas diferentes para cada indivíduo. No meu caso, o silêncio absoluto em meio à tempestade fez com que não apenas eu me desligasse do caos lá fora, mas também me ajudou a perceber que não importa a força da tempestade que estamos enfrentando. Inevitavelmente, manter o equilíbrio e a calma nos auxilia a passar pelas mais devastadoras experiências imagináveis.

Embora lutemos frequentemente contra emocões que nos esgotam e consomem nossa paz, manter a serenidade é essencial. Dançar na chuva pode ser uma das experiências mais marcantes de sua vida. A alma muitas vezes precisa desta oportunidade de renovação e limpeza. Ninguém que tenha passado por esse tipo de experiência, que tenha sobrevivido a um furacão, permanece o mesmo.

 Você está enfrentando algum furacão em sua vida? Alguma experiência tem testado seus limites? Pare, respire fundo, não olhe apenas para as circunstâncias. Encontre o seu lugar de refúgio. Permaneça em silêncio. Eleve o pensamento ao Criador dos Céus e da Terra. Lembre-se que depois de toda tempestade surge um lindo dia ensolarado e tudo se ajeita.

Talvez, em alguns casos, leve mais tempo do que gostaríamos para reconstruirmos a vida, nossas casas, ou o que quer que seja, mas o que importa é que com foco, paciência, e muita determinação conseguiremos.

Com carinho e gratidão pela vida,

Claudia Martins