O que fazer e o que não fazer?

Vivemos numa cultura que ressalta que nunca é tarde, porém em relação a todas as coisas que nos levam a perder tempo, energia, e fazem a gente se sentir pesado, enfraquecido e desmotivado, SIM – já é tarde – e esses são apenas sinais evidentes de que já passou da hora de nos livramos de todos os desperdícios.

Quem nunca fez a famosa listinha de ano novo onde escrevemos os desejos, objetivos para o ano e muitas vezes entre estes desejos estão lá os de, finalmente, alcançar o peso ideal, alimentar-se de forma mais saudável, voltar a estudar, mudar de emprego ou carreira, trocar de carro ou comprar uma casa; casar-se ou divorciar-se, viajar. Tudo isso para, enfim, começarmos a viver um pouco. Ganhar alguma felicidade de fato.

Li uma vez, que num determinado ano novo uma linda jovem de 21 anos, depois de vários meses de total dedicação para alcançar o peso ideal, levantara sua taça de champanhe comemorando o objetivo alcançado com toda a disciplina e determinação e disse para a amiga, “Agora sim, estou pronta para começar a viver. Agora, chegou a minha vez!” Contudo, dois dias depois de tão alegre comemoração, essa jovem encontrou a morte num trágico acidente de carro.

Nossa cultura adora dizer que “Nunca é tarde demais”. Muitos de nós somos programados a acreditar que a qualquer momento podemos adicionar no nosso “Bucket List” cada aventura sonhada desde a infância e realizar cada uma delas. Porém a vida é curta. Para preencher nossa vida com as coisas que realmente valem a pena, primeiro, é essencial esvaziá-la de tudo aquilo que não tem significado, propósito ou valor. Em outras, palavras, estamos ocupando muito da nossa mente e emoções com coisas, atitudes, pensamentos, amizades e relacionamentos para as quais não dispomos mais desse tempo para desperdiçar. Pare de adiar o que você realmente gostaria de realizar e tome a decisão de empreender o que quer fazer. Como escreveu, certa vez, Cora Coralina: “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir”.

Agora, te pergunto, se você soubesse que estes seriam seus últimos três meses de vida, como você escolheria viver sua vida?

Com certeza, não seria esperando suas coxas afinarem ou a barriga secar para finalmente começar a viver. Eu, pelo menos, não perderia meu sono por isso.

Já é tarde para viver uma vida sem propósito. Nosso propósito de vida se manifesta na maneira como escolhemos vivenciar nossos momentos nesta vida. Viver a vida com propósito acontece quando escolhemos e decidimos cultivar um estado mental que julgamos ser o mais correto para nós. Quando sentimos paz e alcançamos equilíbrio através das escolhas mais acertadas à minha própria existência. Como já dizia Carl Jung “O sapato que se ajusta a um homem aperta o outro; não há nada para a vida que funcione em todos os casos”.

É tarde demais para sentir-se culpado em preferir as coisas simples da vida.

Quando começamos a nos livrar do peso que cada um de nós, automaticamente, carrega, e sem necessidade, criamos espaço para curtir as coisas simples da vida, como sentir o cheiro da grama recém cortada, tirar uma soneca, ler um livro, brincar com uma criança no chão, assistir televisão ou simplesmente fazer nada, o chamado ócio criativo.

Há alguns anos, como parte de meu próprio tratamento terapêutico foi-me recomendado tirar de 15 a 30 minutos diários, pelo período de uma semana, a fim de não fazer ou pensar em coisa alguma com seriedade ou preocupação. Poderia ficar sentada, deitada, olhando a paisagem, mas durante esse tempo não deveria usar o telefone, nem me ocupar com nada, simplesmente vivenciar aqueles minutos de silêncio e quietude. Naquela época, estava lendo dois livros ao mesmo tempo, fazendo pesquisas e projetos e também trabalhando em período integral e estudando, inclusive aos sábados. Me pareceu muito estranho, as primeiras vezes em que coloquei em prática o tal exercício, porém, foi vital, para meu próprio processo de desaceleração e equilíbrio naquela época.

Quando recomendo aos meus pacientes para que tirem uma soneca, se deem um tempinho diário para caminhar ou simplesmente façam nada, eles costumam me olhar surpresos, e o questionamento é imediato: “Mas, quem tem tempo para isto nesta vida corrida que vivemos?”

Temos que aprender a priorizar o que realmente importa na vida. Cada um tem sua própria jornada nesta terra, somos obcecados por realizações, sucesso, dinheiro dentre outras tantas coisas. Não há nada de errado com realizações e progresso material, o que prejudica o nosso bem estar emocional é vivermos uma vida em desequilíbrio. Na tentativa de preencher os vazios do nosso interior e da alma criamos mais compromissos, agendas lotadas e escassez de tempo para apreciar a beleza da vida em todo seu esplendor e simplicidade.

Felicidade na minha opinião, tem muito a ver com gratidão. Ao desenvolvermos uma atitude de gratidão em relação a nós mesmos, à vida e aos outros ao nosso redor, encontrando alegria no que temos, nos tornamos mais felizes. O comprometimento de forma integral com o tempo presente, em vez de nos concentrarmos em enormes e constantes preocupações com objetivos futuros, nos auxilia a viver o aqui e o agora de modo mais natural e simples. Como bem frisou Mário Quintana: “Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.”

Ao olharmos ao nosso redor, focalizando o que de bom possuímos, aprendemos a valorizar o milagre da vida. É importante estarmos cientes de que a felicidade não reside em um destino final, mas na apreciação de nossa caminhada. Se acreditamos que a felicidade depende do cumprimento de metas, e que isso só será alcançado em um momento futuro, nos desgastamos emocionalmente, e podemos desencadear um estado de frustração crônica.

Quando aprendemos a abraçar o que realmente importa, o que realmente amamos, o milagre acontece. A gente percebe que a nossa hora de viver e ser feliz já chegou: é exatamente agora.

Feliz Natal e um Próspero 2014

Dra. Claudia Martins

2 Comment(s)

  1. Feliz Natal ,linda reflexão, sempre no momento certo.
    Parabéns .
    shamea

    Shamea | dez 9, 2013 | Reply

  2. Bela leitura! Obrigada por sempre trazer tanta clareza e animo pra mim!

    Priscylla | dez 30, 2013 | Reply

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