Entendendo um pouco mais sobre o TDAH

(TRANSTORNO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE)
 
O que significa TDAH? Nós brasileiros morando nos Estados Unidos estamos mais familiarizados com a sigla ADHD (Attention Deficit Hiperactivity Disorder). Meu desejo com este artigo é informar e tirar dúvidas de pais preocupados com o desenvolvimento de seus filhos e que, ao mesmo tempo, sentem-se “culpados”, sem saber se fizeram algo de errado, já que seus filhos demonstram comportamento inapropriado no ambiente escolar, em casa, em viagens, festas de aniversário, ou simplesmente durante uma brincadeira na casa de um coleguinha.
Vale ressaltar que o TDAH (ADHD), em alguns casos, não tem nada a ver com negligência disciplinar por parte dos pais. No entanto, uma disciplina consistente e a rotina devem estar presentes na vida de todas as crianças para facilitar seu próprio desenvolvimento. Ao estabelecer hábitos eficazes de disciplina, a criança aprende a compreender e a assumir responsabilidade por seu comportamento.
Uma das primeiras perguntas feitas por pais em meu consultório, com relação aos sintomas do transtorno (muitas vezes inicialmente identificado na escola pelos professores), é se toda criança agitada e/ou desatenta tem o TDAH. E a resposta é NÃO. Nem toda criança nessas condições é portador do  TDAH.
Queridos pais, leiam o artigo e observem por si mesmos se seu filho ou filha necessita de um acompanhamento profissional. Se sua resposta for sim, não hesite em buscar ajuda.
Criança que geralmente é descrita como inquieta, “avoada”, desde pequena, corre de um lado para o outro o dia todo, sem que nada a detenha, nem sequer o perigo. Ela esparrama brinquedos pelo chão e quase sem usá-los já pega outros. Em alguns casos, colegas de escola a evitam e, mesmo assim, ela sempre acaba lhes pedindo ajuda com as lições que não consegue copiar a tempo.
Uma criança levada, que não pára no lugar e não se concentra em nada. Como assim?! Como pode ser hiperativa uma criança que ao jogar videogame ou assistir a um filme ou jogo na televisão fica horas a fio quieta, sem ao menos piscar os olhos?
Esta mesma criança perde objetos com frequência e é desordenada – tendo que ser cobrada o tempo todo, não somente para que complete as tarefas, mas também porque é distraída. Em alguns casos tem muita dificuldade em terminar o que começou e pára na metade. É interessante observar a frequência com que interrompe suas atividades, como por exemplo quando vai a algum lugar e pára no caminho, fala com alguém, se entretém numa brincadeira – até com algum animal ou passarinho voando por ali. A criança hiperativa é facilmente distraída por estímulos do ambiente externo, e até mesmo por seus próprios pensamentos.
Tal criança pode ser portadora do Transtorno de Déficit de Atenção por Hiperatividade (TDAH). Trata-se de um dos transtornos mentais mais comuns nas crianças em idade escolar, atingindo 3 a 5% delas. O desconhecimento desse quadro frequentemente acaba levando à demora no diagnóstico e no tratamento dos portadores do TDAH, que por sua vez acabam sofrendo por vários anos sem saber que sua situação pode ser tratada.
O “Manual de Diagnóstico e Estatística”, da Associação Americana de Psiquiatria (IV Edição), associa a presença dos sintomas de hiperatividade com a impulsividade, e por outro lado sugere que a falta de atenção pode ser um sintoma isolado (em outras palavras, os três sintomas acima mencionados não necessariamente precisam aparecer juntos). Sendo assim, temos três síndromes maiores: 1. – falta de atenção e hiperatividade-impulsividade; 2. – apenas falta de atenção; e 3. – hiperatividade-impulsividade apenas.
Geralmente, os meninos são afetados mais do que meninas, embora se suspeite que as meninas sejam, provavelmente, subdiagnosticadas.
QUAIS SÃO OS SINTOMAS?
 
Na realidade, determinar o nível de atividade normal de uma criança é um assunto polêmico. A maioria dos pais cria expectativas com relação ao comportamento de seus filhos e, normalmente, estas expectativas incluem um certo grau de agitação, bagunça e desobediência – características aceitas como indicativos de saúde e vivacidade infantil. Porém, algumas vezes podemos estar diante de um quadro de hiperatividade, que foge da simples questão de comportamento.
Excesso de energia? Não. Decididamente não se trata de crianças que têm energia demais. Elas têm uma doença perfeitamente conhecida pela medicina: hiperatividade. A hiperatividade, ou mais precisamente o Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), não é um problema neuropsiquiátrico que acontece apenas com os filhos dos outros. O TDAH não tratado pode ser responsável por enorme frustração dos pais e baixa auto-estima da criança. Uma das angústias experimentadas por eles é que os pacientes diagnosticados com TDAH são frequentemente rotulados como “problemáticos”, “desmotivados”, “avoados”, “malcriados”, “indisciplinados”, “irresponsáveis” ou, até mesmo, “pouco inteligentes”.
Segundo vários pesquisadores, terapêutas e médicos e da área, as crianças portadoras de TDAH ultrapassam a  barreira das travessuras engraçadinhas, deixam de ser adoráveis diabinhos e se transformam em um verdadeiro transtorno na vida dos pais, professores e todos a sua volta. Elas parecem ignorar as regras de convívio social e, devido ao incômodo que causam, acabam sendo consideradas de má índole, caráter ou coisa parecida.
No entanto, é preciso deixar claro que as crianças hiperativas NÃO são, de forma alguma, más. Porém, essas crianças têm extrema dificuldade em sentar e dialogar. Por outro lado, ainda é comum encontrar entre leigos, a noção de que a criança hiperativa seja apenas mal educada pelos pais. Este tipo de acusação frequentemente traz uma sensação de fracasso aos pais. Por isso, é muito importante que os profissionais estejam preparados para desfazer este mito.
 
Quadro Clínico do TDAH
 
De acordo com o DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) (Manual de Diagnóstico e Estatísticas de Desordens Mentais)
O Transtorno de Déficit de Atenção é caracterizado primariamente por:
1. Dificuldade de atenção e concentração, característica que pode estar presente desde os primeiros anos de vida do paciente.
2. A criança (ou adulto, quando for o caso) tende a se mostrar “desligada”, tem dificuldade de se organizar e, muitas vezes, comete erros em suas tarefas devido à desatenção. Estas características tendem a ser mais notadas por pessoas que convivem com o paciente.
3. Constantemente esses pacientes esquecem informações, compromissos, datas, tarefas, etc.
4. Costumam perder seus pertences ou não lembrarem de onde os deixaram.
5. Têm dificuldades para seguir regras, normas e instruções que lhe são dadas.
6. Têm aversão a tarefas que requerem muita concentração e atenção, como lições de casa e tarefas escolares.
Em cerca de metade dos casos, a criança pode ainda apresentar hiperatividade, como movimento incessante de mãos e pés, dificuldade de permanecer sentado, ou dentro da sala de aula fala muito, se mexe muito e tem dificuldade em realizar qualquer tarefa de maneira quieta e recatada.
 
Em alguns casos, também pode ocorrer a impulsividade – caracterizada pela incapacidade de esperar a sua vez, interrompendo ou cortando outras pessoas durante uma conversa, e também agindo por impulso ao falar as respostas antes mesmo que as perguntas tenham sido concluídas.
Critérios Diagnósticos para Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade
 
A. Ou (1) ou (2)
 
1) seis (ou mais) dos seguintes sintomas de desatenção persistiram por pelo menos 6 meses, em grau mal-adaptativo e inconsistente com o nível de desenvolvimento:
Desatenção:
(a) frequentemente deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras;
(b) com frequência tem dificuldades para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
(c) com frequência parece não escutar quando lhe dirigem a palavra;
(d) com frequência não segue instruções e não termina seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais (não devido a comportamento de oposição ou incapacidade de compreender instruções);
(e) com frequência tem dificuldade para organizar tarefas e atividades;
(f) com frequência evita, antipatiza ou reluta a envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa);
(g) com frequência perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por ex., brinquedos, tarefas escolares, lápis, livros ou outros materiais);
(h) é facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa;
(i) com frequência apresenta esquecimento em atividades diárias.
(2) seis (ou mais) dos seguintes sintomas de hiperatividade persistiram por pelo menos 6 meses, em grau mal-adaptativo e inconsistente com o nível de desenvolvimento:
Hiperatividade:

(a) frequentemente agita as mãos ou os pés ou se remexe na cadeira;
(b) frequentemente abandona sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera em que permaneça sentado;
(c) frequentemente corre ou escala em demasia, em situações nas quais isto é inapropriado (em adolescentes e adultos, pode estar limitado a sensações subjetivas de inquietação);
(d) com frequência tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer;
(e) está frequentemente “a mil” ou muitas vezes age como se estivesse “a todo vapor”;
(f) frequentemente fala em demasia.
 
Impulsividade:

(g) frequentemente dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem sido completadas;
(h) com frequência tem dificuldade para aguardar sua vez;
(i) frequentemente interrompe ou se mete em assuntos de outros (por ex., intromete-se em conversas ou brincadeiras);
B. Alguns sintomas de hiperatividade-impulsividade ou desatenção que causaram prejuízo estavam presentes antes dos 7 anos de idade;
C. Algum prejuízo causado pelos sintomas está presente em dois ou mais contextos, como por exemplo na escola (ou trabalho) e em casa;
D. Deve haver claras evidências de prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, acadêmico ou ocupacional.
Normalmente, o diagnóstico começa pela eliminação de outras patologias ou problemas sócio/ambientais, possivelmente causadores dos sintomas. Além disso, os sintomas devem, obrigatoriamente, trazer algum tipo de dificuldade ou impedimento à realização de tarefas.
A idade e a forma do surgimento dos sintomas também são importantes, devendo ser investigados, já que no TDAH a maioria dos sintomas está presente na vida da pessoa normalmente desde a infância. Para que se considere um TDAH, os sintomas devem se manifestar em vários ambientes. Os sintomas que só aparecem em um ambiente específico (como por exemplo, só em casa, só na escola, só quando sai de casa, etc.), devem ser investigados com mais cuidado, para verificar se não possuem origem psicológica.
É importante lembrar que o TDAH não deve ser usado como desculpa para um comportamento desrespeitoso e inadequado. Ao responsabilizar os filhos pelo que fazem, você está mantendo uma posição de cuidado, amor e carinho. Não demonstre irritação com o comportamento de seu filho, seja claro quanto ao que é esperado dele.
Ensine seu filho a respeitar regras da família. Ao impor limites você estará reforçando comportamentos esperados pela família. Jamais grite com ele ou o rotule. Em alguns casos, os pais (mais do que as mães) precisam superar preconceitos sociais e de gênero para poderem oferecer a seus filhos o nível emocional de que eles tanto necessitam.
Existem pessoas famosas que ganharam medalha de ouro, fundaram empresas, se tornaram artistas, cantores, escreveram livros, atuaram em cinema e TV, entre outros exemplos de sucesso profissional; e de forma alguma seu futuro brilhante foi determinado por um diagnóstico.
Dra. Claudia Martins

Apoio Multi Holding

Dr. Claudia Martins’ photo produced by www.passportpictures.org

 
 

8 Comment(s)

  1. Olá! Acabei de conhecer o seu blog e adorei! Vou freqüentar sempre… Estou no 3º período de psicologia na UPE,e o professor já mandou que fizéssemos um trabalho com os padrões da monografia, o meu tema é “A hiperatividade no desenvolvimento socio-educativo” adorei o seu post me ajudou muito no desenvolvimento do meu tema!! E gostaria de saber se vc tiver mais material sobre este tema manda pra mim, vou adorar indicar você pra minha turma na faculdade! Grata.

    Raquel | mar 5, 2011 | Reply

  2. Dr. Claudia,

    Obrigado pelo artigo tão informativo e esclarecedor. Me vi completamente na sua descrição da criança que sofre deste transtorno. Hoje adulto, consigo entender mais sobre o meu comportamento que muitas vezes afastou amigos e eu na época não entendia o motivo.

    Jean | mar 11, 2011 | Reply

  3. Ótimo trabalho! Bastante dinâmico e informativo!

    Priscylla | mar 18, 2011 | Reply

  4. Olá, quero parabenizá-la pelo brilhante artigo. Quando comecei a ler me senti em seu consultório, tudo foi muito claro e real e é exatamente assim, quem tem filhos com essas características sabe o que uma mãe passa, nao é facil!
    Eu estava conversando com uma grande amiga(Shamea Noronha) sobre minha filha e ela indicou seu blog, adorei, sempre estarei aqui pra ler algo mais, sua ajuda foi muito importante. Obrigada
    Josy Campelo

    Josy | abr 2, 2011 | Reply

  5. Simplesmente perfeito este artigo, o Pedro tem TDAH diagnosticado por uma equipe terapêutica multidisciplinar, e ele se encaixa em basicamente tuto que você relatou… artigo de grande ajuda para entendermos mais estes pequenos especiais. Tenho uma ótima relação com a escola,onde ele tem professor auxiliar para acompanhá-lo. Tem ajudadado muito. Continue neste caminhada, Claudia. beijos e Obrigado

    Léia | abr 21, 2011 | Reply

  6. Adorei o blog obrigada por essas informações….

    Carla Rosa | out 11, 2011 | Reply

  7. Estou começando agora com o meu marido os testes para confirmar o distúrbio TDH gostaria de saber como lidar com ele como saber tratá-lo?
    Ele é músico, viaja muito as vezes parece estar distante de tudo, ele muda muito rápido de comportamento.

    Carla Rosa | out 11, 2011 | Reply

  8. Prezada Carla,
    Obrigada pelo contato. Como você ficou sabendo do meu Blog?
    Vocês moram em Orlando?
    Aqui vai o meu telefone 407-354-3880, se você quiser agendar uma consulta.
    Atenciosamente,
    Dra Claudia Martins

    Dr. Claudia Martins | out 11, 2011 | Reply

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